Sou um cara muito corajoso. Não sou de ter medo de qualquer coisa, não. E quando acontece de eu ficar meio assim com alguma coisa, Papai ou Mamãe estão sempre me mostrando que está tudo bem. Mas ontem senti medo. E abri o jogo.
Sempre quando Mamãe chega do trabalho, ela sai comigo andar pelas calçadas do bairro. Ontem estava bem gostoso e saímos andar. Acho muito legal andar pela calçada e com isso aprendi muitas coisas:
- Não se deve andar na rua. A rua é para os carros.
- Devemos andar na calçada e só na calçada. Senão o carro pega e machuca.
Mamãe sempre me convida para irmos andar na rua, e respondo isso para ela, ela acha lindo e diz: “Isso mesmo... você é muito esperto!”.
- Outra coisa legal que aprendi, é que quando vamos atravessar a rua, tem um botão perto de onde vamos atravessar. Se apertamos o botão e esperamos um pouquinho, o bonequinho do outro lado da rua fica verde e podemos passar. Mas só quando o bonequinho está verde. Mamãe até brinca em querer atravessar quando ele está vermelho, mas eu não deixo. É engraçado que é só o benequinho ficar verde que todos os carros param e a gente pode passar. ‘Quase’ todos os carros obedecem o bonequinho. Tem uns teimosos. Ontem mesmo, esperamos um tempão o bonequinho mudar de cor, e quando já estávamos quase na metade da travessia, um carro passou. Mamãe deu bronca no homem que dirigia o carro, e ele se foi. Mamãe ficou brava! Eu também!
- Outra coisa que aprendi, é que quando estamos no carro, não olhamos o bonequinho, olhamos a bolinha. Se ela está verde, a Mamãe ou Papai podem dirigir. Se está vermelha, eles param e esperam mudar de cor. Sendo assim, se estamos a pé, olhamos o bonequinho; se estamos de carro, olhamos a bolinha. Verde, significa que podemos andar. Vermelho, esperar!
Demos uma passada no mercado, e Mamãe não deixou eu olhar os brinquedos que tem por lá por muito tempo. Ela disse que eu já tinha visto o suficiente, e que eu não levaria nenhum hoje, pois ontem ela deixou eu levar uma gatinha. Saí de lá chorando, pois eu queria ver mais. Fomos até a farmácia e no caminho, ela fez eu ouvir um barulho que eu nunca havia me dado conta: Grilos. Passamos numa árvore e o barulho era bem alto. Ela explicou que ele era bem pequeno e sentia medo da gente, por isso se escondia. EU é que fiquei com medo de todo aquele barulho. Fomos para casa falando sobre grilos e eu fiquei ouvindo que em todo canto havia um fazendo barulhinhos.
Em casa, ouvi que tinha algum perto. Fiquei com medo. Mamãe tentou me tranquilizar dizendo que ele é amigo, e estava lá fora. Rá! Se fosse amigo estaria ali dentro e brincando comigo. Não me convenceu e fiquei com medo.
Mamãe disse para eu ir lá no meu quarto pegar meus dragões para a gente brincar. Não consegui. Olhei meu quarto todo escuro, e por mais que eu saiba acender a luz, algo me impediu de ir. O medo.
Olhei para a Mamãe apreensivo e não fui. Ela perguntou o que aconteceu. Respondi: “Mamãe, estou com medo.” Não lembro de ter dito isso em algum dia. Nunca senti nada igual. Nunca fiquei colado no chão sem conseguir ir a algum lugar sozinho. Por medo de chegar lá e encontrar alguma coisa no escuro. Medo do escuro. Medo do grilo. Medo.
“ Medo? Medo de quê, Dudu”, Mamãe perguntou. “Medo do escuro”. Respondi. Eu não sabia bem do que eu tinha medo. Mas quando olhei o quarto escuro foi o que eu senti. Ela me pegou pela mão e disse que eu não precisava ter medo. Ela ia comigo pegar os dragões e me mostraria que não tinha nada no quarto que eu precisasse ter medo. Chegando lá, eu não senti mais medo. Liguei a luz, e realmente não havia nada que eu precisasse temer.
Pegamos os dragões, voltamos para a sala, e brincamos. Esqueci o medo, esqueci o grilo, e me senti mais forte.
Realmente no escuro não tem nada. Mas só vemos isso quando acendemos a luz.
Será que o que tem no escuro, tem medo da luz?